BAOBÁS EM PORTO DE GALINHAS
Publicado por Cláudia Cordeiro - Editora e Webdesigner em 02 Mai 2008 | sob: Artigos

Por EDUARDO CÔRTES *
Baobá, na definição do Aurélio, “é uma árvore gigantesca da família das bombacáceas, nome científico ‘Adansônia digitata’, muito disseminada nas savanas africanas, de tronco excessivamente espesso, rico em reservas de água, razão porque se julga o mais grosso tronco do mundo, folhas digitadas e frutos capsulares.” A árvore é considerada sagrada na África, pois pode viver mais de mil anos e também por sua utilização em benefício do homem. “Além de depositarem água em seu tronco, são também utilizadas como residência e até cadeia”, como explica José Pereira Leite, professor da UFRPE e veranista de Porto de Galinhas há mais de 20 anos. O professor Pereira morou na África muitos anos e trouxe vários exemplares da árvore para o Brasil. Uma delas está plantada em sua residência, na praia do Cupe, a mil metros do centro de Porto, e completa 18 anos em maio de 2008, possuindo cerca de cinco metros de altura e diâmetro de um metro na base. O referido professor doou ainda outro exemplar que está plantado próximo de sua residência, em praça pública, mas que, por falta de cuidados, não se desenvolveu adequadamente. “Ipojuca possui cerca de cinqüenta exemplares de baobás”, relata o mestre, sem precisar onde todos podem ser encontrados.
Encontra-se outro baobá no Hotel Armação, a dois quilômetros do centro, este com cerca de dez anos, dez metros de altura e um metro e meio de diâmetro na base. O proprietário do hotel, Mássimo Pellitteri, nos informa que “a árvore foi presenteado por Deodato Teodoro, angolano que mora no Brasil, vizinho em Porto de Galinhas, e que também possui um exemplar em sua casa, próxima ao Armação”.
Outros exemplares da gigantesca árvore podem ser encontrados em Porto de Galinhas, um deles centenário, na residência de Frederico Burle, na beira-mar junto ao centro, que relata que o mesmo “tem mais de cem anos e foi plantado por escravos africanos que eram desembarcados clandestinamente em Porto de Galinhas, trazidos por senhores de engenho para o cultivo da cana de açúcar”. A fazenda Gameleira, terras a direita da estrada de quem chega a Porto, possui também um outro exemplar, que pode ser visto da estrada Porto-Serrambi, cerca de um quilômetro do centro,olhando para a direita de quem sai do balneário em direção à praia vizinha.
O maior de todos os exemplares do Ipojuca se encontra em Nossa Senhora do Ó, sede do distrito onde se situa Porto de Galinhas. Localizado em praça pública, denominada “Praça do Baobá”, este gigante tem cerca de cento e cinqüenta anos de existência, quinze metros de altura e seu diâmetro só pode ser envolvido por vinte homens de braços dados.

LEI DO BAOBÁ
A Editora FLIPORTO está levantando a localização e propriedade dos supostos cinqüenta baobás do Município do Ipojuca, com a finalidade de encaminhar um projeto de lei à Câmara Municipal com o objetivo de tombar os exemplares existentes, responsabilizando os proprietários pela conservação dos mesmos. O projeto já foi abraçado pelo vereador Nem Batatinha, presidente da Câmara, que assim se expressa: “É de grande importância para todos nós homenagear, na figura do baobá, nossos ascendentes negros trazidos como escravos da África, neste ano que a FLIPORTO tem como tema a literatura africana e da América Latina”. Batatinha promete agilizar a tramitação do projeto de lei para que o Prefeito Pedro Serafim Filho sancione o mesmo durante a festa literária, que acontece de 6 a 9 de novembro de 2008.
*Eduardo Côrtes, 59 anos, é engenheiro, escritor e produtor cultural, idealizador da FLIPORTO e da JAZZPORTO, morador de Porto de Galinhas há 22 anos (em maio 2008).
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Você julga importante uma lei de preservação dos baobás? Será um prazer contar com sua opinião.
Cláudia Cordeiro
Sim, pelo potencial simbólico dessa que é considerada a “Árvore da vida” não só pelos séculos que percorre, mas porque dela tudo se aproveita – do tronco às sementes – em vários países africanos. “É a grande árvore maternal / de corpulência de matrona / de dar sombra embora incapaz (pois o ano todo vai sem folhas): / pela bacia de matriarca, / pelas portinarianas coxas, / pela umidade que sugere / sua carnadura (aliás seca e oca), / vem dela um convite de abraço, / vem dela a efusão calorosa / que vem das criadoras de raça / e das senzalas sem história”. Tão útil no Senegal que chamou a atenção de um dos ícones da cultura pernambucana em suas andanças por ali – João Cabral de Melo Neto – que, inspirado pela árvore, compôs três poemas – não conheço outros – um dos quais é o descrito acima, intitulado “O Baobá no Senegal”. Sim, porque a preservação dos exemplares ipojucanos implica sobretudo preservação da memória dos que decidiram, no passado, presentear o futuro com pelo menos três magníficas árvores: a da Fazenda Gameleira, a da beira-mar de Porto de Galinhas, e a mais visitada delas, salvo engano, a de Nossa Senhora do Ó. Sim, porque representará a preservação de uma árvore que, embora exótica, pode ser qualificada, assim como as nativas Pau-Brasil e Pau-de-Jangada, como patrimônio ambiental, pela identidade que muitos cidadãos aqui nascidos ou que aqui viveram (e vivem) mantêm com o maior colosso vegetal do mundo. Sim, pelo potencial turístico. Sabe-se que o município de Ipojuca já oferece o exemplar de Nossa Senhora de Ó como atrativo turístico, mas nada comparado com o que acontece no Rio Grande do Norte – especificamente no município de Nísia Floresta; e no Rio de Janeiro – na Ilha de Paquetá e no município de Quissamã, litoral norte fluminense, onde os exemplares de Adansonia digitata ali existentes são atrativos institucionalizados. Sim, porque um dos exemplares ipojucanos acima citados – o da Fazenda Gameleira – mostra-se muito fértil na produção de frutos que originaram mudas que hoje se encontram plantadas em vários locais da capital pernambucana – Casa da Cultura – Praça Chora Menino – Faculdade de Direito – Encruzilhada – Oficina Cerâmica Francisco Brennand – Museu da Abolição, só para citar alguns. Algumas produzidas por mim, mas a maioria produzida por Irineu Renato Barbosa, veranista de Porto. Inclusive, Barbosa é um dos destaques do documentário “O Baobá no Brasil: Um Tributo”, juntamente com o Prof. Leite citado no artigo ora comentado e outros dois cidadãos pernambucanos que muito fizeram pela proteção e disseminação desta árvore entre nós. O documentário surgiu como resultado das pesquisas do professor jamaicano John Rashford especializado em etnobotânica, antropólogo do College of Charleston, Carolina do Sul, EUA, estudioso da Adansonia digitata há mais de quinze anos. Referido documentário também homenageia Carlos Fernando Pereira, hoje falecido, da Secretaria de Turismo de Ipojuca, que nos conduziu na visita a todos os exemplares localizados em Ipojuca. Como etnobotânico, Rashford procurou desde o início identificar qual a importância da árvore para os pernambucanos, tendo em vista a alta concentração de exemplares aqui encontrados. Em outro momento, tratou de identificar a importância para o Candomblé, quando a pesquisa resultou no Projeto “(Im)Plantando Morada dos Ancestrais em Salvador”, visando ao plantio, em vários terreiros da Bahia, de mudas, muitas das quais originárias do mais fértil Baobá Ipojucano. Sim, porque a proteção do verde representa a proteção da própria vida.
Com certeza é de grande importância essa lei, que por sinal deveria ser estendida a todo o território nacional de forma a garantir que as árvores dessa espécie sejam conservadas. Espero que a fliporto consiga disseminar informação sobre a espécie e que mais pessoas se envolvam e plantem mais e mais baobás.
Acredito que esta lei será de grande valia, não somente para a preservação ambiental, como também para a preservação e medida de reparação da cultura africana. Fernando Batista, da UFPE, e eu, aqui na UFBA, assessoramos a pesquisa sobre os baobás no Brasil do Dr. John Rashford, Antropólogo e Etnobotânico da the College of Charleston/EUA, quando estivemos em Ipojuca com Carlos Fernando, já falecido, na época trabalhava na Secretaria de Turismo de Ipojuca, ele nos mostrou os belíssimos exemplares de baobás que existem em Ipojuca e ficamos fascinados. Como conseqüência das nossas pesquisas de campo no país e, em especial, em Pernambuco, tive a inspiração de criar o projeto (Im) plantando a morada dos ancestrais em Salvador, numa parceria do Centro de Estudos Afro-Orientais da UFBA juntamente com a Secretaria Municipal de Reparação em Salvador, que já atravessou fronteiras se expandindo para o interior da Bahia e já plantamos também em Sergipe, com muitas mudas provenientes das sementes do baobá da Fazenda Gameleira em Ipojuca. Este ptojeto visa plantar baobás em áreas públicas de Salvador e em terreiros de candomblé, pois o baobá é uma árvore sagrada para a religião do candomblé. As mudas de baobás que foram plantadas próximo ao Aeroporto de Salvador, no Parque da Cidade, Dique do Tororó, Parque São Bartolomeu e campus da Universidade Federal da Bahia são exemplares das sementes Ipojucanas.
Sou de Salvador, Bahia e tive a grande satisfação de participar da linda cerimônia realizada no Campus Universitário da Universidade Federal da Bahia, no bairro de Ondina. A cerimônia contou com a participação de mães/filhas/pais e filhos de santo desta cidade. Foi um belo ritual, que segundo estudiosos do assunto,seguiu, o ritual recomendado pela religião do candomblé.Concordo inteiramente com a defesa de uma lei nacional que incentive o plantio e a preservação dessa importante árvore.
Sim, é muito importante ações públicas, como leis, que reflitam a valorização e respeito dos poderes públicos com a participação dos povos africanos e afro-brasileiros para o crescimento do Brasil. O Baobá é uma das sementes africanas que germinou em solo brasileiro. Devemos todos, Estado e sociedade em geral, preservá-lo e criar meios para seu digno florescimento: dos Baobás e das tantas outras sementes (vegetais e culturais) africanas e afro-brasileiras que enchem o Brasil de oxigênio, beleza e força.
Preservar a natureza é muito importante, e preservar uma árvore com valor histórico e que mexe com nossas raízes é de suma importância. Diz um proverbio Africano que homem e natureza não se separam. E nós nos importamos, pois a ausência destas frondosas árvores podem causar um impacto não apenas ambiental, mas cultural.
Sim, pois é importantíssimo para todos de PE e do Brasil.
Acredito que deveria ser até difundido de forma mais expressiva junto ao povo pernambucano que tem tantas influências derivadas da nossa Mãe africa.
Quem sabe alguém ou alguma instituição não coloca a venda “sementes de baobá” para os interessados iniciar uma bela campanha de semeadura.
Todo homem deve antes de morrer fazer 3 coisas:
1- Criar um Filho (ter)
2- Escrever sua história (livro)
3- Plantar uma árvore - o “Baobá”
já énsou … árvores de Baobá, plantadas e bem cuidadas por todos os bairros de nossa Cidade e Estado?
Martha Rosa,
Grato pelo comentário.
Eduardo Côrtes
Claudia Cordeiro,
Sua pergunta foi de muito significado e propiciou todos os contatos deste site. Parabéns minha cara amiga.
Eduardo Côrtes
Davi,
Grato pelo comentário.
Eduardo Côrtes
Rosangela Nascimento,
Grato pelo comentário.
Eduardo Côrtes
Fernando Batista,
Grato por repassar seus conhecimentos sobre o assunto dos baobás. Gostaria de aprofundar minha apredizagem no assunto. Peço entrar em contato. Meu e-mail: cortesedu@bol.com.br
Abraços,
Eduardo Côrtes
Berivaldo Silva,
Grato pelo comentário.
Eduardo Côrtes
Edelson de Assis,
Grato pelo comentário.
Eduardo Côrtes
Correspondente sem nome de 26 de Mai 2008 às 17:09
Grato pelo comentário.
Eduardo Côrtes
Paracomprar sementes de Baobá (Adansonia digitata) acesse: http://www.ilhabonsai.com.br
Desde 29.08.2008, a produção de “A ÁRVORE DE JÚLIA” está distribuindo, pelo menos, uma muda de Baobá ao final da peça e distribuirá, também, sementes da árvore, todas doadas por mim. A peça se encontra em cartaz no Teatro Barreto Júnior, no Pina, às sextas-feiras, sábados e domingos até o final de outubro de 2008. Dessa forma, acho que contribuo para disseminar não só essa magnífica árvore, como, também, o teatro pernambucano que está tão bem representado pelos que fazem a mencionada peça. FERNANDO BATISTA (fbatistape@gmail.com).
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